Renato Rodrigues

Renato Rodrigues

O título de uma identidade

Renato Rodrigues, do DataESPN
GazetaPress
Fábio Carille e Cássio comemoram título após o Corinthians derrotar o Fluminense por 3 a 1, em Itaquera
Fábio Carille e Cássio comemoram título após o Corinthians derrotar o Fluminense por 3 a 1, em Itaquera

Foram altos e baixos durante o longo Brasileirão 2017. Um primeiro turno não só de um grande aproveitamento, mas também de um futebol bem jogado - inclusive propondo o jogo em vários momentos, ao contrário de quem afirma que o time de Fábio Carille só joga em contra-ataques. Um pouco antes da virada do turno, veio a queda brusca de desempenho. Uma crise técnica que se alastrou no segundo turno. 

Grandes atuações, clássicos vencidos e uma eficácia grande para se manter no topo. Partidas de um nível técnico para se esquecer, falhas defensivas, principalmente, em bolas paradas, intensidade baixa. Talvez as duas frases anteriores seja o resumo da campanha "montanha russa" alvinegra. Mas uma coisa ninguém pode negar: o Corinthians triunfou, mais uma vez, com uma identidade.

Uns acham pragmático, outros competitivo. Tem gente que critica, existem os que sãos só elogios. Faz parte do gosto futebolístico (ou clubístico) de cada um. Mas não tem como tirar méritos de uma equipe que ficou 30 rodadas na liderança de uma competição desgastante e difícil. Mais que isso, é preciso enxergar o futebol além do resultado. E podemos facilmente perceber elementos de um futebol sólido, rico em conceitos e, principalmente, priorizando o coletivo para elevar suas individualidades.

A grande marca não só deste título, mas de uma era com um DNA vitorioso, é o trabalho defensivo desenvolvido a anos no Corinthians. O conceito de linha defensiva de 4 trazido por Mano Menezes, desenvolvido por Tite e agora estabilizado por Fábio Carille é uma das referências do futebol praticado atualmente no Brasil. Jogo, aliás, que se desenvolveu muito nos últimos anos neste sentido, mas que ainda precisa dar um passo adiante na organização ofensiva.

Não à toa, foram várias as peças que construíram esta forte linha defensiva durante a campanha do título: Fagner, Léo Príncipe, Paulo Roberto, Arana, Moisés, Marciel, Pablo, Balbuena, Pedro Henrique, Léo Santos... Uns com grande desempenho, outros um pouco abaixo. Mas todos com o conhecimento da causa absorvido. Certos do que fazer e como se comportar sem a bola. Setor estreito, linhas de coberturas bem organizadas, movimentos de recuo e avanços coordenados. Cumprir função independente da posição.

Se formos mais além ainda podemos colocar nesta lista nomes como Gabriel, Maycon, Rodriguinho, Romero, Clayson e até Jô. Apesar de não serem laterais e nem zagueiros, em vários momentos ajudaram a linha defensiva no trabalho de compensação, outro grande ponto na organização defensiva alvinegra. Preencheram espaços de companheiros, "substituíram" algum colega que por algum motivo não estava ali posicionado momentaneamente (entenda no vídeo abaixo). Ajudaram a preservar firme um dos pilares desta identidade alvinegra: manter a última linha sempre sustentada.

Noção tática e companheirismo: DataESPN mostra o que faz do Corinthians um time diferente

"Perde e pressiona", "encurta o campo", "manter a bola coberta", "compensar posições", "pontas recompondo até o final e fechando o lado", "vigiar o funil (entrada da área)"... Todos estes foram elementos essenciais trabalhados no dia a dia e que, de tanto exercitados e falados, batem como um martelo na cabeça de cada peça do elenco alvinegro. Essência de um modelo de jogo enraizado na cultura do clube nos últimos anos (jogo contra o Grêmio, na análise abaixo, é um bom exemplo).

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Com a bola o Corinthians também jogou. Atuações como contra o Vasco em São Januário, Bahia, São Paulo, Sport e Palmeiras na Arena, entre outras, provam que não foram só de contra-ataques que os alvinegros viveram. Na virada do turno, por exemplo, o Corinthians trazia consigo um número bastante curioso: mesmo não tendo uma grande média de posse de bola - número por vezes mal qualificado (clique e veja aqui) -, era a equipe que mais passava na competição. Evidência de um futebol vertical, e não reativo, que buscava passar rápido e não ter a bola apenas por ter. Triangulações pelos lados, infiltrações de Rodriguinho e Maycon, avanços de Fagner e Arana, mobilidade de Jô para abrir espaços... Os pilares da construção ofensiva que, apesar de ter oscilado, é o terceiro melhor ataque da competição (veja exemplos de construção nos vídeos abaixo).  

DataESPN: Calçade mostra o jogo de aproximação e triangulação do Corinthians contra o Vasco
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Tudo isso jamais seria possível sem uma palavra: processo. Apesar dos desvios conceituais com Oswaldo de Oliveira e Cristóvão Borges, a diretoria do Corinthians, que assim como a maioria no Brasil carrega consigo seus defeitos, tem apostado na continuidade não só de treinadores, mas de ideias. Não tenho total convicção que tais decisões e escolhas foram tomadas com o discernimento e conhecimento futebolístico ideal, mas de fato as mesmas foram decisivas para atingir o atual patamar de conquistas recentes do clube.

Ao apostar em Carille - mesmo o antigo auxiliar não sendo a primeira opção da direção - Roberto de Andrade & Cia. devolveram ao Corinthians uma identidade. Algo já aceito pelo torcedor. A competitividade aliada à intensidade - que está longe daquela raça por raça, comum em equipes desorganizadas e que correm errado - é motivo de orgulho para o corintiano. Hoje o torcedor conhece e se identifica com uma maneira de jogar. Tem mais referências para se julgar e, inevitavelmente, cobrar.

E foi na fase ruim que isso ficou bastante evidente. O Corinthians pouco performou no segundo turno do campeonato. Melhorou nas últimas partidas, mas não conseguiu atingir o nível de desempenho do início da competição. Caiu inclusive na intensidade de seu jogo. Enquanto muitos cobravam medidas drásticas, como troca de sistema e até em elementos valiosos do modelo de jogo trabalhando desde a pré-temporada, Carille mudou características. Demorou um pouco até, mas viu em Camacho, Marquinhos Gabriel e Clayson as respostas que precisava dar à queda técnica em Jadson e Maycon. Terminou as partidas contra Avaí e Fluminense voltando ao 4-1-4-1 vencedor de Tite em 2015. Um ajuste posicional apenas (se considerando que o sistema base é o 4-2-3-1), mas que surtiu efeito em momentos difíceis.

Mas a temporada não foi só da revelação Fábio Carille. Foi também das ressurreições de Cássio e Jô. O primeiro, de herói do Mundial aos problemas com a balança e perda da posição, ao posto de goleiro de Seleção. Atuações e defesas decisivas, aliados à liderança desenvolvida com os seis de clube. Um dos poucos remanescentes da geração que conquistou a América e o mundo no Japão. O caso de Jô é mais emblemático ainda. De problemas fora de campo a um amenizador de ansiedades, principalmente dos mais jovens. Um termômetro do vestiário, sempre enaltecido pelo comandante. O artilheiro do Brasileirão (veja no vídeo abaixo um pouco da mobilidade do centroavante).

DataESPN: Hofman mostra movimentação de Jô para abrir espaço em jogadas do Corinthians

O futebol do Corinthians, queira você ou não, foi o melhor do Brasileirão. Está longe de ser uma equipe revolucionária, um conjunto que realmente eleve a qualidade do jogo por aqui. Traz consigo problemas estruturais como vários outros, principalmente quando falamos em se organizar para atacar. Esteve acima da pobreza conceitual que vivemos na atual edição do nosso maior campeonato e ainda tem um caminho a evoluir na próxima temporada. Foi um futebol de ideias, de respeito ao processo e, principalmente, de uma identidade forte. Uma identidade corintiana.  

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