Mauricio Barros

Mauricio Barros

E você, voltou a gostar de Seleção Brasileira?

Maurício Barros
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Criança durante o jogo entre Brasil e Chile
Criança durante o jogo entre Brasil e Chile

Foi um ótimo teste o jogo contra o Chile no Allianz Parque. E a Seleção Brasileira passou com sobras. Era a última oportunidade antes da Copa da Rússia para fazer uma partida à vera, mesmo com o país já classificado. Porque os chilenos jogavam a vida e têm um bom time, embora sem a mesma pegada dos tempos de Jorge Sampaoli, quando ganharam duas vezes a Copa América. Ataque rápido, defesa muitas vezes ríspida, jogadores manhosos, experientes e provocadores. Pena não estar em campo Arturo Vidal, que daria a pegada que faltou ao meio chileno.

Mas o Brasil jogou de forma segura e tranquila. Mesmo o risco-cartão foi controlado. Neymar e Coutinho levaram o amarelo, mas seguraram os nervos e se garantiram para a estreia. Foi uma vitória categórica por 3 x 0, fechando o torneio qualificatório de maneira exemplar, histórica.

Há basicamente dois desafios para a Seleção Brasileira nesses nove meses que restam até a estreia no Mundial da Rússia. Um deles é técnico e envolve os amistosos. A diferença na tabela de classificação das Eliminatórias mostra que o Brasil restabeleceu seu lugar de hegemonia entre os vizinhos sul-americanos. E isso em uma época em que os vizinhos não são mais pangarés. É hora então de medir forças com as potências europeias.

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Espanha, Inglaterra e Alemanha estão no radar. Será importante, mas sempre é preciso considerar que, em amistosos, o nível competitivo não é pleno, o risco de contusão pesa para aliviar divididas. Faz parte também da questão técnica não só treinar alternativas ao time titular como definir o restante do grupo de convocados. Duvido que Tite tenha 50 nomes de onde escolher, como se comentou. Esse número é menor. E as dúvidas são poucas. Uma vaga no gol, outra na lateral, uma na zaga, uma ou duas no meio, uma ou duas no ataque. De resto, salvo contusão, a turma está definida.

O outro desafio é manter o bom clima dentro e fora do vestiário. Fazia tempo que uma seleção não conquistava a simpatia do torcedor brasileiro nem tinha boa relação com a imprensa. Isso por conta de uma soma de anos que, em essência, subtraiu: os escândalos envolvendo cartolas (isso continua uma lama), o futebol pobre e figuras antipáticas em campo e no banco (e aí falo desde Parreira, Ronaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos em 2006 até Dunga, Felipe Melo, Felipão 7 a 1 e Dunga de novo...).

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Tite desperta admiração de norte a sul. E o grupo de jogadores demonstra saber que estar na seleção é um privilégio para pouquíssimos. Mesmo nos mais consagrados, como Daniel Alves e Marcelo, é impossível avistar uma nesga do desdém visto, por exemplo, na turma de 2006. E até Neymar, o mais badalado jogador brasileiro desde Pelé, midiático a ponto de gerar antipatia em muita gente, é um sujeito que quer estar em campo sempre e corre até o último minuto. Não consigo imaginar, ainda mais sob o comando de Tite, esses caras botando o pé no freio por soberba.

A menos de um ano da Copa, a Seleção Brasileira se recoloca como candidata a ir longe não apenas pela “força da camisa” – essa é a Argentina, essa é a Itália. Há futebol consistente. Está em condições de competir por uma final. Mas não é melhor que França, Alemanha e tampouco Espanha. E não será surpresa se, porventura, vier a ser derrotada por Bélgica e Portugal, por exemplo. Talvez o principal legado do 7 x 1 tenha sido acabar de vez com essa história de que somos melhores que todos por natureza e só perderemos para nós mesmos. O salto alto está enterrado sete palmos abaixo do gramado do Mineirão e lá deveria ficar para sempre.

Já a principal contribuição do trabalho de Tite talvez seja dar ao Brasil uma seleção por quem valha a pena torcer, pintar a cara, botar fitinha na antena do carro e colorir de novo as ruas. Ou seja, curtir a Copa do Mundo. Ganhar é outra história.