Renato Rodrigues

Renato Rodrigues

A maturidade do Atlético-MG e a discussão sobre tempo e trabalho no futebol

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Gazeta Press
Jogadores do Atlético-MG abraçam Cazares após gol contra o Godoy Cruz
Jogadores do Atlético-MG abraçam Cazares após gol contra o Godoy Cruz

Roger Machado chegou a Belo Horizonte com a missão de comandar um forte elenco em grandes competições em 2017. Mais que isso, trocar a identidade de um Atlético-MG que alcançou grandes resultados nos últimos anos, mas que sempre teve a sensação de que podia mais. As oscilações no início da temporada criaram uma forte pressão no treinador que, aos poucos, vai colhendo os frutos de toda uma transformação. E o tempo, como quase tudo nas nossas vidas, vai dando as respostas que tanto se espera.

"Mas quem é o Godoy Cruz?", "O que esses caras ganharam?", "Tem mais que atropelar mesmo"... Estes talvez sejam os argumentos de quem viu a goleada por 4 a 1 e ainda não percebeu que a organização tem, cada vez mais, feito diferença no futebol jogado atualmente. E seja para o bem ou para o mal. Quantas vezes, nos últimos anos, equipes tecnicamente bem inferiores e sem tradição, complicaram a vida de grandes brasileiros? Guaraní-PAR, Jorge Wilsteman, The Strongest... Não são poucos os exemplos. 

Cada vez mais maduro e seguro do que fazer dentro de campo, o Galo tornou fácil um jogo que poderia ser difícil. É hoje um time equilibrado e que sabe se comportar nos diferentes momentos do jogo. Ainda mais importante, de forma coletiva.

Sem a posse, por exemplo, se coloca bem atrás da linha bola com duas linhas de quatro. Flutua e fecha os lados do campo de acordo com a posição da bola, sempre a usando como referência. Em certo ponto chega até a dar os lados do campo para o adversário, mas sempre protegendo muito bem a área, com um linha defensiva estreita e sempre sustentada. Quando Marcos Rocha ou Fábio Santos ainda estão em transição defensiva, por exemplo, a linha de 4 é compensada por algum volante/meia.

Controla bem os espaços defensivos sem a posse. Deixou a ideia de se marcar individualmente, característica de seus últimos treinadores, para marcar de forma zonal. Perceba como raramente a linha de 4 se quebra com perseguições mais longas. Seus jogadores pressionam a bola apenas quando a mesma entra no setor. Se ela sai, voltam a se posicionar no espaço pré-estabelecido.

Tamanho sincronismo, ainda mais com um elenco que estava acostumado a se comportar de uma maneira totalmente diferente, não se atinge da noite para o dia. É só com o tal do treino que se estimula e cria estes tipos de comportamentos nos atletas.

Mas é com a bola que o crescimento do Atlético-MG tem sido mais nítido. Com todo esse respaldo citado acima, o senso criativo dos jogadores vai se aflorando. Com as repetições, os movimentos ficam cada vez mais naturais e "soltos". A ideia de jogo mais apoiado com a bola, base do modelo perseguido por Roger Machado (clique aqui e veja sua entrevista exclusiva ao blog), tem ganhado toques de agressividade. Foram vários os momentos de apoio vertical contra o Godoy Cruz. Conceito que foge de ter a posse simplesmente por ter.

Esse apoio vertical aconteceu seguidas vezes nas construções ofensivas. Sempre com passes agudos, que progrediam no campo, quebrando linhas e gerando espaços no sistema defensivo argentino. O gol de Elias é um "mix" de todos estes conceitos: passe, movimento e ataque ao espaço. O "puro creme" do futebol atual e objetivo, sem perder a essência brasileira que tanto buscamos nos últimos tempos.

Falar da evolução e transformação atleticana sem falar de tempo é impossível. Muitos de nós cobramos que treinadores tenham períodos maiores em seus cargos. Mas cada caso é um caso. Existem situações, por exemplo, que é dado o tempo, mas que você não consegue, por mais que se esforce, enxergar ideias. Por isso manter ou não um treinador é uma tomada de decisão complexa, muitas vezes feita por pessoas que não tem o entendimento do jogo necessário para tal. O caso do treinador atleticano é totalmente diferente.

Apesar dos percalços no caminho, Roger Machado dá mostras dessa evolução desde os primeiros jogos no ano. Depois de assimilar as ideias, os atletas têm conseguido cada vez mais executá-las com eficiência. Talvez o único ajuste necessário que eu apontaria, usando a partida contra o Godoy Cruz como base, é em algumas recomposições defensivas. Em certos momentos, quando Robinho ou Cazares (que se revezaram na função) deixavam de retornar, a linha de três volantes sofria percorrendo espaços maiores na hora de flutuar para o lado da bola. Os hermanos, ligados nisso, até criaram algumas situações atacando o lado oposto.

Por fim, é justo dizer que o tempo e o trabalho estão caminhando juntos a Roger. Uma equipe repleta de grandes individualidades, com organização e ideias, trilha o caminho da solidez e de etapas mais ricas. Com o coletivo mais fortalecido do que nunca, Fred, Robinho, Cazares & Cia. tendem sempre a resolver. Sem a estrutura criada por trás deles, fica mais difícil...

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